Catarse - crônica de um amor virtual

Ela conheceu o Sátiro numa sala de bate papo, esse zoológico virtual de perversos solitários.

Eles se entenderam. Afinal, diferenciavam-se apenas pelo gênero e pela altura. À exceção disso, eram absurdamente iguais, resguardando-se, claro, as diferenças de biografia.

Encontraram-se. Um e outro enfrentando o pânico de uma incursão na realidade, em busca do afeto concreto.

Tocaram-se: bocas e línguas, romanticamente, numa noite de chuva.

Mas ele a deixou. Alegou compromissos, amigos, bagulhos, cervejas. E como um motoboy apressado, desapareceu pela noite de estia.

Falaram-se outras vezes. Quilômetros de palavras e poesias, verbalizadas e escritas em expressões tensas de expectativas.

Seduziram-se. Planejaram encontros, jantares, beijos, sexo... Mas nunca realizaram.

Discutiram. Romperam. Ignoraram-se. Discutiram. Voltaram. Romperam. Ignoraram-se. O mesmo ciclo, por meses. Sem nunca se encontrarem, sem nunca enfrentarem o parto que a realidade exigia: o descolamento da virtualidade uterina.

Ela sofria. Por si mesma e pelo Sátiro. E chorava por ambos, todos os malditos dias...!

Embora suspeitasse, ele jamais soube, com certeza, das suas lágrimas. Nem da sua dor, ou da sua paixão.

Mesmo afirmando que o amava com o desprendimento dos iogues, o fato de desejá-lo com a intensidade das putas era prova inconteste de que era, sim, perdidamente apaixonada por ele!

A recíproca, claro, era verdadeira. Ela não apenas possuía os encantos que, por suposto, ele perseguia em todas as mulheres, como, por óbvio, a sedução era uma via de mão dupla: se ela era apaixonada por ele, ele o era, igualmente, por ela.

No fundo, os dois sabiam. Por mais que se esquivassem de admitir para um e outro que se gostavam, se desejavam, se consumiam de ciúmes por todos os homens e mulheres que compunham o exército de amigos que ostentavam nas redes sociais, eles sabiam.

Sabiam porque eram iguais: praticamente o espelho virtual de si mesmos. Mas sabiam, acima de tudo, porque possuíam uma conexão rara: mesmo duvidando, se ligavam de tal forma que nenhuma racionalidade era capaz de explicar como se compreendiam ou como se desejavam!

Entretanto, não se permitiam. Permaneciam impotentes, em estado de suspensão, como um vidro de antibiótico colocado ao lado do filtro.

Não corriam o risco, nem mesmo de serem um acerto. Quedavam distantes, em lados opostos da cidade, emaranhados na teia silenciosa de um eterno "e se".



Comentários

  1. Oi Musa!!!! Crônica sensacional. Já havia lido na sua página do FB, mas foi uma agradável surpresa encontrar aqui no Blog! Sucesso, poderosa!!!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Aylla! Muito obrigada, viu? Você é sempre muito bem vinda!

      Excluir

Postar um comentário


Deixe seu comentário!